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sábado, 10 de janeiro de 2015

Capítulo 14 - Recomeço (capítulo final)

– O que foi isso? – O Herman da Família Monstro perguntou logo atrás de mim. O tom de preocupação habitando, pela primeira vez, a sua voz. – Que cheiro é esse? – Percebi que seu corpo se movia pelo quiosque de madeira. Os cachorros latiam mais forte que nunca.
Noah parou seu movimento de abrir o zíper da mochila pela metade. Uma bomba sabor mostarda não parecia fazer parte de seus planos. Olhou para os lados, desconfiado. Não viu ninguém. Os olhos dourados encaravam o jardim, a garagem e logo mudavam o foco para a mochila que estava em suas mãos. Aproveitei a distração momentânea para tentar soltar mais dedos das cordas que me prendiam. O indicador já estava livre e eu estava quase conseguindo passar o dedo médio pelo vão que se formou entre o nó das amarras. O homem moreno e mais baixo saiu andando em direção à frente da casa e levou um dos cachorros consigo. O Herman parecia curioso, mas não se moveu.
Eu tentei jogar meu corpo para frente fazendo menção de me levantar. As cordas prendiam meus membros entre si, mas não me atavam à cadeira de madeira pesada. Noah pareceu ficar assustado com tudo o que estava acontecendo ao mesmo tempo. Mais barulhos de explosões eram audíveis na frente da mansão. Herman retirou uma pistola de dentro do colete. Eu duvidava muito que os outros membros da Família Monstro fossem favoráveis ao porte de armas.
Noah colocou a mochila de lado, em cima da mesa de madeira que havia no quiosque. Aquele era um espaço planejado para que houvesse um churrasco dominical e eu esperava muito que eu não virasse a carne principal. Minha irmã estava na casa, tenho certeza. Quem mais bolaria um explosivo caseiro feito com mostarda? Ela também era a única que sabia que eu estava com o Noah fazia horas, mas o que ela poderia fazer? Estaria sozinha?
O loiro colocou uma das mãos no bolso da calça. Pensei, por um momento, que ele também fosse sacar uma arma, mas notei que ele havia pegado o celular. Talvez fosse esse o motivo de ele precisar de dois capangas para render uma menininha. Provavelmente, não entendia muita coisa quando o assunto era violência física. Discou algumas teclas e logo estava com o aparelho grudado à orelha, esperando que alguém o atendesse. Mais uma explosão foi audível e luzes coloridas que formavam desenhos variados habitaram o céu.
Herman ficou desesperado quando ouviu que o companheiro berrava, a longa distância, entre os trovões que marcavam o fim de tarde. Eu ouvia latidos ao longe e o outro cachorro respondia latindo ao meu lado. Lembrei que Sofia era alérgica. Ela não poderia estar enfrentando um homem pequeno, mas robusto e um cachorro sozinha. Uma esperança de que o Sam estivesse com ela começou a brotar dentro de mim. Herman correu em direção aos gritos e às explosões que aconteciam na parte frontal, não tão distante de onde estávamos. Noah ainda estava de costas, sussurrando rapidamente ao telefone coisas que não consegui entender.
Empurrei meu corpo para frente com toda a força que conseguia. Cambaleante, fiquei de pé. Eu não conseguiria andar com os pés presos, então comecei a dar pulinhos, feito uma criança que participa de alguma gincana escolar. Era um trabalho árduo. Cada vez que eu pulava inclinando o corpo para frente, as cordas que prendiam meus tornozelos arranhavam a pele, produzindo um atrito que esfolava a epiderme progressivamente. A cada novo movimento, eu sentia que o machucado ia cortando mais fundo.
Noah virou-se quando eu já estava quase conseguindo sair quiosque à moda de um canguru. A raiva o fez arremessar o celular no chão amadeirado. Correu em minha direção e, não importava o quanto eu tentasse apressar minha saída, eu nunca conseguiria fugir de alguém que não tinha as pernas amarradas entre si. Arremessei meus braços presos em sua direção com toda a força quando ele tentou me agarrar por trás. A bofetada atingiu-lhe o tórax e ele pareceu ficar ainda mais furioso. Deu-me uma cotovelada nas costas enquanto tentava me imobilizar. Continuei me mexendo freneticamente enquanto sentia meu dorso arder. Mesmo amarrada, ele teria que suar a camisa se quisesse me manter ali.
Mais gritos e mais explosões foram audíveis enquanto Noah e eu continuávamos nosso confronto injusto. Tenho certeza que se ele estivesse com mãos e pés amarrados como eu estava, eu teria acabado com ele. Ele tentou acertar a minha cabeça com um soco quando ouvimos outro trovão. Eu me inclinei para baixo e, por instinto, meti-lhe uma cabeçada na barriga. Ele cambaleou e quase caiu. Começou a chover.
A água molhava meus cabelos cor de mel que começaram a ficar ensopados e a cair por sobre o meu rosto. Eu não tinha como tirá-los da frente dos meus olhos. Noah urrou de ódio enquanto comecei a pular para frente de novo, já estava bem próxima da piscina. Se eu conseguisse andar mais alguns metros, poderia chegar ao corredor que levava à garagem. Então encontraria minha irmã na parte frontal da mansão. Meu subconsciente tinha certeza que havia escutado a voz do Sam. Ele estava lá. Pela terceira vez nessa história, alguém que inicialmente tinha o plano de me matar estava me salvando a vida.
Noah se jogou na tempestade quando agarrou minhas costas novamente. Eu recebia socos e pontapés enquanto me remexia tentando me defender desse dissimulador. Gritos escaparam da minha garganta quando a dor me atravessava profundamente a pele, como se fosse um dos espetos daquele churrasco que eu havia citado antes. Ele também gemia enquanto eu o acertava como podia. Meu ódio era mais poderoso que qualquer sensação dolorosa que poderia surgir naquele instante. Eu queria feri-lo da pior maneira possível.
Meus ouvidos também captavam o som de uma briga que estava acontecendo lá fora. Eu não sabia como Sam e Sofia estavam se saindo contra dois homens e dois cachorros em meio a uma das maiores tempestades dos últimos tempos. Eu, sinceramente, esperava que nenhum dos dois se machucasse. De repente, eu não consegui ouvir mais nada.
Meus olhos ardiam dentro da água. A visão embaçada só me proporcionava ver um tom de azul claro e feixes de luzes que tremiam lá em cima. A água entrava pelos meus ouvidos e abafava qualquer som, como se estivessem distantes demais agora. Segurei a respiração para que os meus pulmões também não fossem invadidos. Noah havia me empurrado na piscina sem qualquer hesitação. Eu senti meu corpo descendo como se fosse uma pedra que alguém jogou ao mar. Desesperadamente, tentei desatar os nós que prendiam as minhas mãos e todas as tentativas foram frustradas. Mexia o corpo em frenesi, tentando subir de volta à superfície.
Os pulmões começaram a doer enquanto a aflição aumentava de forma progressiva. Minha cabeça se mexia deslocando todo o líquido subjacente, mas não conseguia atingir as luzes lá fora, que pareciam próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes. Senti que meu peito ia murchando rapidamente, o coração batia acelerado, os pensamentos ficavam cada vez mais borrados.
Eu meditei muito sobre os caminhos que levaram minha vida até o ponto onde se encontrava naquele instante. Em uma dessas reflexões percebi como situações e encontros insignificantes podem levar a um futuro inesperado. Se eu, por acaso, fosse uma garota que acreditasse em coincidências, chegaria à conclusão de que a vida não passa de encontros desordenados assim como pingos de chuva que se chocam com o vento, mas como não sou assim, creio que as coisas acontecem por um motivo específico. Nada do que havia acontecido até aquele momento onde eu me afogava lenta e dolorosamente fora coincidência. Ter conhecido o Sam, o Noah, o que aconteceu com o Sr. Felix, aquele mendigo, a invasão ao meu apartamento, tudo fazia parte da mesma rede de mentiras que outras pessoas haviam planejado para mim. Agora, esses mesmos pingos de chuva se chocavam contra a água turbulenta que me sufocava a cada novo segundo. Esses pensamentos e reflexões foram sendo, vagarosamente, apagados. O líquido muito límpido filtrava a minha mente, envolvia meu corpo, asfixiava meus pulmões.
O vazio que preenchia meus ouvidos, de repente, começou a ser substituído por uma melodia conhecida. The Final Countdown ressoava dentro da água e apenas dentro da minha cabeça. Eu sabia porque: era a minha contagem final. Talvez esse tenha sido, o tempo todo, o motivo pelo qual a primeira personalidade do Sam sempre tocava essa música. De alguma maneira, seu subconsciente sabia que estava tocando para mim. A contagem era minha agora. E ela estava decrescendo como a areia de uma ampulheta.
Subitamente, meus olhos visualizaram uma figura masculina na água. A imagem borrada vinha ao meu encontro sorrindo. Os olhos cor de mel me encaravam com ternura e os lábios se escancaravam em um sorriso convidativo. Era como se ele estivesse me chamando. Pisquei com a dificuldade de abrir os olhos mais uma vez. Eu sentia meu peito murchando e a dor era suficiente para paralisar meus movimentos. Eu parei de remexer o corpo tentando encontrar a superfície. Imóvel, encarei meu pai com os olhos que eu havia herdado dele. De repente, era como se eu sentisse o bilhete que estava no meu bolso dissolvendo-se em meio à água. Era como se eu mesma estivesse me esvaindo. E eu não tinha medo, meu pai estava comigo. Ele estava me chamando enquanto a música tocava em alto e bom som na minha cabeça. Quando o último fragmento de papel dispersou-se, eu também perdi os sentidos.




– Mel? Mel! – Eu ouvi a voz conhecida do Sam me chamando com urgência. – Você precisa acordar, meu amor! Agora!
Abri os olhos e encarei cabelos muito negros caindo sobre a minha face. Ouvi a tempestade decaindo sobre nós. Eu estava toda encharcada e deitada sobre alguma pedra mais fria que o meu próprio corpo. Ergui meu tronco e notei que ainda estávamos na casa do Noah, próximo à piscina onde eu quase me afoguei. Sam parecia muito desesperado, estava sangrando em várias partes do corpo. Estendeu uma das mãos fortes para me ajudar a levantar. Eu ainda estava meio zonza.
– A mochila. – Foi o que eu consegui pronunciar enquanto encarava a mesa de churrasco do quiosque. Sam correu para pegar a minha mochila, colocou-a nas costas e logo estava ao meu lado de novo.
– Vem. – Puxou minhas mãos com mais força do que o esperado. Eu o segui. Ainda estava tentando focalizar o que havia acontecido. Notei que eu não mais estava com os membros amarrados. Sam deveria ter me soltado assim que me tirou da piscina. – Não temos muito tempo. Sua irmã conseguiu apagar um deles, mas teve problemas com os cachorros.
– Cadê o Noah?
– Levou uma surra. – Ele disse com tamanha ira que foi surpreendente até mesmo para mim. – Covarde.
Continuamos andando pelo corredor de pedra que levava à ampla garagem da mansão do Noah. Eu ainda estava bastante confusa sobre os últimos fatos, mas estava sendo guiada pelo Sam, então minha confiança ia retornando aos poucos. A situação de urgência na qual estávamos também não me permitia ficar tonta por muito tempo. Precisávamos ser rápidos se quiséssemos sair todos dali com segurança.
Chegamos à garagem muito branca, planejada com azulejos e pisos de cor muito clara. Notei que um carro conhecido estava estacionado nela. Sam tinha trazido Sofia até aqui no carro em que praticávamos as aulas de direção e, não sei como, ele tinha conseguido estacioná-lo na garagem do Noah. Teria ele deixado o portão destrancado depois que entramos? Ou arrombamento seria outra das habilidades noturnas no Sam?
Tudo estava quieto demais, não havia sinal de nenhum dos dois homens ou dos cachorros que haviam migrado do quiosque para aquela direção. Sam soltou minhas mãos com cautela e entrou em estado de alerta. Caminhamos devagar até o veículo quando percebemos que, atrás dele, Sofia estava amarrada e tinha um pano dentro da boca.
O homem moreno estava apontando uma faca diretamente ao seu pescoço. Provavelmente, eles esperaram o Sam se afastar para atacar a minha irmã. Percebi que Herman estava sentado sobre o chão da garagem, ainda tonto e olhando para baixo. O rosto outrora muito branco estava cheio de hematomas. Também parecia ter torcido ou quebrado o pé. O outro homem sorria com os dentes ensanguentados enquanto rendia Sofia. Eu conseguia ver o horror refletido nos olhos arregalados da minha irmã.
Sam não hesitou por um segundo. Qualquer outra pessoa normal e sensata trataria essa situação com extrema delicadeza, mas ele não. Ele saiu correndo feito um tigre das savanas e avançou. O homem também ficou surpreso com essa reação, esbugalhou os olhos e retirou o sorriso dos lábios enquanto empurrava minha irmã, que colidiu com a parede. Eu gritei e corri para desamarrá-la. Um clarão gigantesco iluminou o lugar.
– Entra no carro. – Ordenei e ela saiu correndo, trêmula. Entrou pela porta de trás e eu fiquei mais tranquila que ela não estava mais em perigo iminente. Agora eu tinha outro problema para me preocupar.
Sam e o homem moreno lutavam alguma modalidade que eu não sabia bem qual era. Golpes eram deferidos junto ao barulho dos trovões. Sam era muito forte e sabia lutar. Desconfio que ele fez algum tipo de treinamento quando era criança ou coisa assim. Mas ele estava em desvantagem. Assim como Noah estava me batendo enquanto eu estava amarrada, o outro homem estava armado com uma faca enquanto lutava com o Sam.
Apressei-me na direção deles quando percebi que aquele homem queria esfaquear meu namorado de qualquer maneira. Esquecendo toda a dor, toda a sensação de vertigem e toda a ardência que eu sentia em todos os músculos do meu corpo, comecei a chutar as pernas do homem moreno enquanto dava socos em suas costas com o máximo de força que eu conseguiria. Ele tentou defender-se de mim dando um coice para trás. Meu corpo oscilou e eu levei um tombo. Os olhos furiosos do Sam repousaram sobre mim e ele tacou um murro no meio da cara do seu oponente. O homem rugiu e lágrimas discretas caíram sobre sua face, então, cravou a faca no braço direito da pessoa que materializava todo o amor que eu sentia.
Samuel fez uma careta e gritou como eu nunca tinha ouvido antes. O rival riu de alguma piada que não tinha graça nenhuma e retirou a faca fincada nos músculos dele. Ele berrou novamente, colocou a mão esquerda sobre a ferida e se curvou, contorcendo-se com a sensação dolorosa. Eu me senti a pior pessoa do universo. Era simplesmente terrível observar, sem poder fazer nada, uma pessoa que você ama sendo alvo de tamanha dor. E pior: era tudo minha culpa.
Com um movimento rápido, Sam deu um chute violento no abdômen do homem moreno e este caiu no chão, gritando e tentando vomitar. Herman parecia ainda estar alheio a tudo o que estava acontecendo. Eu me levantei e tentei ajuda-lo a entrar no carro. Sam ainda fazia muita careta enquanto tentava conter o sangue que escorria pelo seu braço. Entrou pela porta do passageiro e eu já sabia o que eu teria que fazer em seguida.
– Você vai ter que dirigir.
Minhas mãos tremiam enquanto o medo me era mais real agora do que nunca. Um frio diferente de todo aquele que eu estava sentindo percorria minhas roupas encharcadas. Era meu dever, agora, salvar as pessoas que eu amo.
Sofia estava encolhida no banco de trás como se fosse um tatu-bola. Ela levantou a cabeça quando ouviu que eu teria que dirigir. Tenho certeza que ela estava pensando qual morte seria menos dolorosa. Não falou nada, apenas encolheu-se mais um pouco. De todas as pessoas que eu conheço, ela era a que menos acreditava que a força física resolveria qualquer coisa. Entretanto, sua inteligência incomum não foi capaz de salvá-la de uma faca apontada para o seu pescoço. Estava traumatizada.
– Eu não consigo. – Choraminguei sentada no banco do motorista. Eu não sabia se eu seria capaz disso. Encarei o Sam novamente para ter certeza de que ele não poderia fazer isso por mim. O braço direito perdia mais sangue a cada segundo e começava a sujar o tecido do banco.
– Eu confio em você.
Aprendi uma lição. As pessoas que estão ao seu redor e que o amam são cúmplices diante de quaisquer dificuldades que apareçam pelo caminho. Elas estão sempre ali para acolher e ajudar a saltar os obstáculos na corrida da vida, mas elas não podem o salvar sempre. Chega uma hora que é a sua vez de usar toda a sua energia interior para saltar sozinho. É a sua vez de criar asas, fechar os olhos e adquirir responsabilidade sobre seus próprios problemas. Sam não poderia me salvar pela quarta vez nesta história. Chegara a hora que eu deveria ter força o suficiente para fazê-lo. E eu fiz.
Girei as chaves do carro e começamos a dar a ré. O moreno ainda gritava no chão e tinha ânsias de vômito enquanto Herman parecia ter recuperado seu estado normal. Essa combinação de mostarda com sabe-se-lá-o-que que a Sofia produziu dentro do próprio quarto era capaz de causar uma confusão mental até grandinha, mas que não duraria muito tempo. Já estávamos saindo da garagem quando ele se levantou e começou a procurar pela pistola que tinha em posse quando estávamos no quiosque. Quando o carro tocou o asfalto da rua, ele começou a atirar.
– Abaixa! – Sam gritou urgentemente enquanto olhava para trás.
A tempestade dificultava muito minha visibilidade. Fiquei desesperada com o barulho de tiros atingindo a lataria do veículo. Preferi manter o foco no que eu estava fazendo e não olhei para trás. Minha irmã tatu-bola ainda estava encolhida, segura. Sam parecia satisfeito com o meu desempenho como motorista. Minhas mãos estavam tremendo, meus pulmões davam a impressão de que iriam explodir a qualquer momento e todas as minhas células do corpo reclamavam de uma dor intensa, mas eu não tinha tempo para nada disso. Eu precisava continuar dirigindo. Se eu parasse, estávamos mortos. E a chuva não estava nem aí. Continuava a cair lá fora como se nada estivesse acontecendo.




– Entra. – Falei em tom de complacência. Ele tinha me dado as chaves do apartamento para que eu pudesse abrir a porta. Ainda estava com o braço sangrando e se recusava a ir ao hospital. Como era teimoso.
Sofia tinha preferido ir direto para casa. Não falou mais nada o caminho inteiro. Fiquei com medo de que ela tivesse ficado seriamente traumatizada. Era muito incomum que ela passasse tantos minutos assim sem fazer qualquer tipo de reclamação. Sam tinha dito que ela o procurara, também disse que ela combinou alguns fogos de artifício com aquela substância de mostarda para criar um explosivo alternativo de última hora. Eu não sei como ela poderia ter planejado tudo isso sozinha ou, até mesmo, conseguido trazer à tona a segunda personalidade do Sam mesmo durante o dia. Era uma super irmã.
– Se divertiram? – Uma voz feminina perguntou assim que entramos no apartamento. Meu coração pulou com o susto. Por um segundo, pensei que ainda não estivéssemos livres do perigo.
Júlia sorriu de lado como fazia o irmão. Era como se tivesse acabado de contar uma piada que só ela pudesse entender. E talvez fosse isso mesmo. Os cabelos muito grandes e negros presos em maria-chiquinha quase no topo da cabeça seriam quase inocentes se ela não tivesse uma arma presa à cintura. Talvez fosse sua melhor amiga. A regata preta com um decote maior do que deveria para uma pessoa tão violenta mostrava uma adolescente magra, mas com um corpo moderadamente malhado. Eu não sabia se ela lutava tão bem quanto o Sam, talvez suas habilidades envolvessem a pistola mesmo.
– Julie! O que faz aqui? – Sam pareceu contente ao vê-la. Fiquei confusa. Sua outra parte parecia detestá-la.
– Sammy! – Ela correu para abraçá-lo. Tomou cuidado para não apertar o braço que ainda jorrava sangue. – Você não atendeu minhas ligações!
– Estive ocupado. – Ele inclinou a cabeça para mostrar o braço machucado. Eu o ajudei a chegar até o sofá e comecei a procurar aquela maletinha onde ele guarda gaze, remédios e essas coisas. Só então, percebi uma grande quantidade de malas cor de rosa cheia de patinhos estampados que estavam empilhadas sobre o chão da sala.
– Vou morar com você! – Júlia disse tentando parecer animada. Com certeza ela gostava mais dessa personalidade que da outra. Fiquei chocada. Até parei de procurar o que quer que fosse para poder escutar o resto dessa conversa.
– Júlia... – Ele falou em tom sério e ela pareceu não se importar. – Você sabe das complicações.
– Eu não ligo. – Deu de ombros e sentou-se no sofá. Aquele dia estava vestida como se fosse a Lara Croft, agora estava usando uma sainha preta como se fosse uma paquita, com exceção da arma colada à cintura fina. Ela era uma combinação muito bizarra entre o infantil, o sexy e o mortal. Os olhos verdes piscaram para ele em sinal de cobrança. Tive a impressão de que ele não queria discutir isso nesse momento.
– Já conhece a Mel? – Eu a encarei, intimidada. Era tão mais bonita, forte e confiante do que eu mesma, além de ter um ar sombrio que eu não tinha. Não sei se eu deveria ter medo dela.
– Ah. Oi. – Ela disse apenas, como se não fizesse nenhuma questão, mas também não foi mal educada. Pegou o controle remoto, ligou a televisão e repousou as pernas sobre a mesinha de centro como se fosse a dona da casa.
Eu sorri e acenei. Eu não queria criar problemas com a irmã do Sam. Além do mais, ela não parece ser uma pessoa ruim, ela só se tornou desconfiada e meio paranoica por causa de todos os problemas que rondavam sua família. Era compreensível.
Percebi que, na televisão, se passavam os capítulos finais da novela mexicana. Kate Lúcia e Rodolfo Augusto estavam juntos e felizes enquanto Maria Antonieta, não sei como, tinha uma prótese mecânica no lugar do braço, parecendo com o Darth Vader. Sam e eu nos juntamos a ela no sofá. Acho que nós três poderíamos formar uma família algum dia. Isto é, se eles aceitassem alguém que não fosse uma espécie de ninja no grupo.




– Ah, você sumiu! – Rebecca disse ao telefone na tarde seguinte. Ela havia insistido que queria me ver, mas eu tenho certeza que ela surtaria se visse a quantidade de marcas roxas que eu tenho pelo corpo nesse momento.
– Estive fazendo limpeza ontem. – Menti enquanto encarava a quantidade normal de tranqueiras empilhadas pelo meu quarto.
– Fiquei preocupada! Você quer conversar sobre aquela caixa que seu pai te deixou? Já sabe o que é?
– Não, ainda não. Acho que vou abrir quando eu estiver pronta. – Respondi com indecisão. Vislumbrei o relógio de parede do meu quarto. Ainda faltava algum tempo para que eu pudesse curtir o feriado com o meu namorado.
– Certo. – Becca concordou e não tocou mais no assunto. Também fiquei pensativa.
Acho que o braço do Sam iria melhorar, no fim das contas. Ele tinha me garantido que não tinha sido tão grave assim e que, se piorasse, iria procurar um hospital. Eu só não sabia como ele explicaria a sua outra personalidade essa facada. Talvez a Júlia o ajudasse. Pelo jeito, ele teria que aceitar a irmã morando com ele por algum tempo. Eu não sei se isso atrapalharia nossa relação, acho que não. Geralmente ficávamos no meu apartamento e não no dele. Sem contar que a Júlia não parecia o tipo que empatava os romances do irmão. Na verdade, ela não parecia se importar com nada que envolvesse nós dois.
– Preciso da sua ajuda. – A minha melhor amiga confessou depois de um tempo que ficamos caladas no telefone. Secretamente, perguntei a mim mesma se essa ajuda envolveria o Lean. – Tive uma ideia.
– Qual? – Perguntei temendo a excitação que brotara de repente em sua voz.
– Vou criar um site de relacionamentos!
– Que? – Eu estava perplexa. Não era exatamente isso que eu quis dizer quando falei que ela deveria procurar um romance no lugar certo.
– Um monte de gente acha o amor da sua vida na internet! Pensei em criar um site que combina as pessoas compatíveis, sabe... Falei com o Nilson, aquele nerd lá do colégio, ele disse que pode criar um pra mim! – Avisou como se fosse a melhor notícia dos últimos tempos. Eu duvidei muito. – Você, Sam e Sofia podem ser os primeiros usuários! Que tal?
– Você ficou louca? Sam e eu já somos namorados e Sofia prefere ser enforcada por um fio dental do que ter que encostar em alguém.
– Mas não é pra realmente combinar vocês, tipo... É só pra já ter usuários. Pra encorajar as outras pessoas a se inscreverem também. – Ela explicou em tom de súplica. Senti um bocado de compaixão pela minha amiga. Acho que eu poderia sim fazer isso por ela.
– Tudo bem. Depois me manda o cadastro que eu convenço o Sam e a Sofia.
– Te amo! – Ela gritou bem animada e eu me senti melhor.




– Então quer dizer que você me traiu comigo mesmo. – Sam fingiu estar aborrecido enquanto fincava os pés na areia da praia.
De última hora, tínhamos resolvido passar a noite de feriado naquela praia onde fomos ao luau certo dia. Ele mesmo havia enfaixado o braço direito e disfarçava o machucado usando uma das costumeiras jaquetas pretas. Eu me senti feliz que ele estivesse ali comigo, naquela hora tão importante.
A noite estava tranquila e estrelada, muito inversa à noite anterior. Se eu olhasse para cima, conseguiria distinguir minha estrela no céu. Ela brilhava em um tom avermelhado se destacando na constelação de escorpião. Ao encará-la, senti um toque de serenidade que há muito tempo eu não sentia. Era como se eu acreditasse que o pior havia passado. Agora eu poderia ser feliz do lado da pessoa que eu amo. Mas não antes do próximo passo que daríamos hoje.
Sentei-me na areia sem me incomodar de sujar minhas calças jeans. Sam sentou-se ao meu lado e repousou no chão a mochila que carregava nas costas. Encaramos as ondas do mar por alguns instantes. Ele parecia tão calmo quanto o meu coração, que não batia mais apertado, desesperado dentro do peito. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentia que poderia ser livre dentro do meu peito.
– Tem certeza que quer fazer isso? – Ele me perguntou com seriedade. Era uma grande decisão para mim. Talvez isso que estávamos prestes a fazer me mudaria para sempre.
– Tenho. – Respondi decidida. Eu não iria dar pra trás na última hora. Não mesmo.
Sam segurou meu rosto com aquela força habitual. Nada delicado, mordeu meus lábios e entramos em um beijo profundo, com direito à respiração descompassada e aquela urgência costumeira aos nossos beijos. Meus dedos tocaram os cabelos negros tão adorados por mim. Puxei-os com moderação, eu sabia que o Sam gostava de uma dorzinha prazerosa, pra variar. Ele respondeu mordendo meus lábios com mais força.
– Está pronta?
– Uhum.
Ele, então começou a abrir o zíper vagarosamente. A mochila preta logo estava aberta com um estalo. Ele, então, colocou as mãos dentro de um dos bolsos. Escutei uma das ondas batendo contra uma rocha próxima.
– Onde você colocou? Não encontro.
Puxei a mochila para perto de mim. Eu tinha certeza que tinha colocado no bolso maior. Não estava lá. Abri todos os outros bolsos com muita atenção. Nada. Ela tinha sumido. Minha caixa tinha, simplesmente, sumido. Será que Noah a tinha pegado? Eu lembro que ele havia colocado a mochila sobre a mesa, mas não tinha chegado a abri-la. Ele ouviu os barulhos causados pelas bombas da Sofia e começou a falar no telefone com alguém. Depois veio tentar me impedir de fugir e me jogou na água. Eu não sabia o que tinha acontecido em seguida.
Quando perguntei ao Sam, ele disse que tinha encontrado Noah logo depois que ele me jogara na água. Então bateu nele e pulou na piscina para me socorrer. Enquanto isso, ele tinha fugido. Mas a mochila estava no mesmo lugar quando acordei. Será que ele tinha voltado apenas para pegar a caixa e sumiu? Bom, era o que fazia mais sentido agora.
A decepção tomou conta da minha face. Eu precisava saber, precisava descobrir o que tinha me colocado em todos esses problemas. Sam também não fazia ideia do que poderia ter lá dentro. A curiosidade queimava em mim, ardia por dentro e se transformava em lágrimas que me molharam a pele. Recebi um abraço apertado.
– Hey. – Ele disse e eu encarei os olhos cor de oliva me sentindo desolada. – Isso não é importante.
Sam me beijou a testa. Talvez fosse melhor assim. Se eles tivessem logo a maldita caixa, estaríamos livres de todos os problemas que nos rondam. Poderíamos ser felizes sem a ameaça do perigo iminente. Poderíamos ser sinceros um com o outro. A falta da caixa não era uma perda. Significava um recomeço para nós dois. Uma nova chance que poderíamos aproveitar juntos. Não era importante saber o que havia lá dentro. O objeto que ela continha nos separou, nos uniu, nos tornou mais fortes. Transformou a mim e a ele. Eu não era mais a mesma garota que eu era quando comecei a contar minha história. Ele também não era mais o homem que saía matando os outros, todas as noites, por vingança. Ele era, agora, duas pessoas inversas, mas duas pessoas inversas que me amavam. A caixa nos transformou. Ela não era o essencial nessa história. Nós dois éramos.
– Pense pelo lado bom. – Ele disse depois de algum tempo em que fiquei calada, refletindo tudo isso.
– Qual?

– Eu te amo em dobro.


Fim do primeiro livro. 

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NOTA DA AUTORA:

Eu sei que demorei DEMAIS para publicar tudo e peço muitas desculpas por isso! Infelizmente eu fiquei muito tempo tentando publicar e não consegui. Depois achei que ninguém mais seguia o livro, então acabei não postando (terminei em 2013). Quando percebi que muitas pessoas me procuraram na página do Facebook pedindo a continuação, resolvi postar.
Ainda não desisti de publicar, mas acho que esses serão planos pra um futuro ainda um pouco distante. Ando escrevendo outro romance, mas mais complexo e atrelado à ficção. 
Espero que me perdoem pela demora. 
Espero que gostem do final parcial (ainda estou pensando se devo continuar). 
Tenho muito carinho por todas.
Lihn Lee.

Capítulo 13 - Fim (Parte 4)

– Mel?
– Oi? – Eu respondi saindo da inundação de memórias e caindo na dura realidade. Eu havia sido enganada de novo, mas por algum motivo, dessa vez eu não me sentia tão destruída como quando descobri sobre o Sam. Eu estava mais enraivecida, queria dar-lhe um soco, mas teria que agir com cautela se quisesse sair dali. Tinha sido atraída para a toca do lobo. 
– Está tudo bem? Você parece meio... doente. – Ele tentou parecer preocupado e colocou uma das mãos sobre a minha testa agora levemente suada. Meu corpo estremeceu ao toque e sua pele parecia muito mais gelada do que o normal.
– Eu estou bem... – Tentei disfarçar e pensando, desesperadamente, na desculpa que eu daria para sair logo dali. Não tive muito tempo. – É que eu estou com um probleminha... Onde fica o banheiro?
– Que probleminha? – Ele perguntou olhando para cima quando me levantei em um salto.
– Bom... Coisas de mulher... Eu esqueci que dia do mês era hoje, fui pega desprevenida. – Peguei com cautela a mochila que estava ao meu lado no sofá. Era uma desculpa ridícula, mas era a única que esclarecia porque eu levaria uma mochila ao banheiro. Parecia que eu conseguia sentir a caixa que eu recebera de herança pulsando lá dentro, quase tão rápido quanto o meu coração.
– O quê? – Ele se levantou e me olhou, agora diretamente, com uma expressão confusa. Depois de uns cinco segundos ele entendeu o que eu quisera dizer. – Ah! Nossa! Entra naquele corredor ali. Segunda porta à esquerda.
Apoiei a mochila em um dos meus ombros e segui as instruções dadas por ele. Um banheiro social grande e todo montado em granito de um tom dourado revelou-se por trás da porta de madeira cor marfim. Uma bancada com pia dupla ocupava grande parte do aposento. Tranquei a porta e larguei o que eu estava carregando em cima da grande pedra fria. A torneira foi aberta com facilidade e logo meu rosto e cabelos já estavam encharcados de água.
O líquido frio que batia sobre o meu rosto não diminuiu a tensão e o medo que corriam pelas minhas veias. Muito menos, me dava alguma ideia de como eu sairia dali. Tirei o meu celular da mochila, senti um tremor que ia dos meus cabelos até os dedos do pé quando notei que não passava das três horas ainda. Mesmo que Sam estivesse em casa, não poderia me ajudar. Ele só virava aspirante a Rambo quando a noite caía. O outro tinha hábitos e feições de quem não conseguiria bater numa criança do jardim de infância, tão pacífico e sereno...
O que eu poderia fazer agora? Eu estava sozinha nessa situação. Movi os olhos ao redor e percebi que havia uma janela de um tamanho razoável no banheiro, aproximei-me dela e percebi que, apesar do tempo chuvoso que estava por vir, ainda faltava muito para, de fato, escurecer. Foi muito azar ter ficado ‘presa’ por aqui justamente nessa hora do dia. Talvez ele saiba. Uma voz masculina e desconhecida ecoou pela minha cabeça. Será que, além de tudo, eu estava ficando esquizofrênica? Mas a voz tinha razão. E se o Noah soubesse sobesse? E se eu fizera exatamente o que ele queria? Saíra de casa, com a caixa na mochila durante o dia, quando eu sabia que o Sam não estaria ali para me salvar dessa vez, como fez quando tentaram me sequestrar. E, afinal, será que a tentativa de sequestro naquele dia que eu estava buscando a Sofie na escola também fora obra do Noah? Eu não tinha como provar isso, mas se não fosse ele, quem mais teria sido? E os homens daquela noite sabiam da existência da caixa, só não sabiam que ainda não estava comigo. Mais um arrepio percorreu o meu ser.
O celular quase escorregou da minha mão por causa da umidade instantânea que esta parecia ter adquirido. Só então a minha consciência parecia notar que eu já passara vários minutos ali parada, encurralada em um pequeno espaço do qual eu não parecia poder fugir. Não havia saída, não restava saída lógica. Eu poderia ligar para a polícia, mas o que eu diria? Eu não estava oficialmente sequestrada. Noah não tinha feito nada comigo... ainda. O que eu falaria? Para começar que eu nem prestei atenção no endereço correto de onde eu estava. Tudo bem, eu sabia que bairro era esse, mas não prestei atenção na rua ou no número da casa. Eu sabia que estávamos perto do Pelicanu’s, conseguia me lembrar da fachada da casa, mas não era o suficiente para dizer à polícia. E por mais que me achassem, eu não tinha evidência alguma de sequestro. Eu poderia ir embora, é verdade, mas Noah poderia ficar bem irritado e nada o impediria de tentar de novo e, se tentasse, não iria fazer as coisas tão amigavelmente como estava fingindo agora.
Eu poderia ligar pro Sam. Mas o que ele poderia fazer agora? Como eu disse antes, provavelmente nada. Nem sei se ele entenderia meu telefonema, para início de conversa. Acho que essa personalidade nem conhece o Noah... Tem a Sofia, é claro. A Sofia conhece o Noah, mas como a minha irmã caçula iria me ajudar? Eu não iria envolvê-la. De todos, era a mais indefesa. Não, minha irmã pequena, não.
– Mel? Tá tudo bem aí? – Ouvi batidas na porta do banheiro misturadas com a voz familiar do Noah.
– Oi? – Falei um pouco gaguejante como resposta automática. Deveria fazer quase 10 minutos que eu estivera ali, claro que ele viria atrás de mim. Qualquer pessoa normal estranharia uma visita que alegava sangramento menstrual ocupando o banheiro por bastante tempo. – Ah, sim... Sim, tá tudo certo.
Por que ele estava fazendo isso? Quero dizer, para quê tanto trabalho para me atrair pra essa armadilha? Teve que passar em uma prova para fazer um curso que o aproximaria da minha irmã para então poder me conhecer, invadir a minha casa correndo o risco de ser pego, forçar amizade comigo, consolar-me diante de sofrimento para só então tornar-se próximo e confiável o bastante para tirar-me o que quisera desde o princípio. E por que ainda assim estava fingindo ser alguém que se preocupa com uma amiga que fica sozinha no ponto de ônibus quando a chuva está por vir ou que fica trancada no banheiro por mais tempo do que o normal? Por que ele simplesmente não me sequestrara de uma vez enquanto estávamos no carro e me tomara a mochila? Por que ao invés disso me levou para almoçar? Seria Noah um psicopata?
Pouco me importava. O fato é que eu já estava cansada dessa rede de mentiras e perseguições na qual eu fora metida. Do jeito que as coisas estavam caminhando, o próximo passo seria descobrir que eu fui adotada e que, na verdade, Sarah é uma agente do FBI vigiando e reportando a minha vida enquanto diz que está no trabalho. E, claro, nessa perspectiva, Sofia seria apenas um alien disfarçado de ser humano para ajudar na batalha contra os malefícios da caixa mágica.
Eu nem queria essa droga. Eu poderia simplesmente larga-la ali e, assim, livrar-me de todos os problemas e ir embora para casa sem impedimentos. Mas algo dentro de minha mente me impedia de seguir esse impulso. Talvez aquele maldito bilhete. “Faça a sua aposta e escolha bem” que tipo de pai escreve isso em um cartão de aniversário? Se ele não sabia o que escrever, poderia apelar pras expressões de sempre, tais como “Parabéns” ou “Felicidades” e ainda “Toda a sorte do mundo no seu dia especial”, mas não algo tão misterioso e um pouco sádico. Que aposta era essa? Eu não queria apostar nada, eu nem queria estar no meio de toda essa história. E agora eu sei que o meu pai sabia no que estava me metendo. Ele sabia que, se me entregasse essa coisa, eu estaria em perigo. E a palavra “aposta” não foi escolhida por acaso. Isso implicava que eu teria que abrir mão de algo para poder ganhar ou perder tudo. E o que eu estava disposta a arriscar?
Não importa. Naquele momento, não importava se eu não queria estar ali, não importava o que eu pensava dessa sujeira toda. Isso não iria me tirar daquele pequeno cômodo onde eu me metera. Eu precisava agir. E eu já havia feito uma decisão baseada em ideias e sentimentos que eu desconhecia: eu não deixaria a mochila para trás.
Olhei para o único meio de sair dali que não fosse a porta. Cheguei mais perto e calculei rapidamente, com os olhos, as medidas aproximadas e se era possível que eu me enfiasse ali sem ficar entalada. Levantei a mochila que estava apoiada na pedra da pia e coloquei-a de volta sobre os meus ombros. Minhas costas sentiram seu peso exercendo pressão sobre a minha pele. A alta velocidade com a qual eu a colocara fizera com que essa pressão inicial tivesse sido um pouco maior, quase dolorosa, já que não havia mais muito tempo.
Meus dedos trêmulos se firmaram na barra metálica vazia que serviria para pendurar as toalhas de banho, as quais seriam destinadas às pessoas que usariam a pequena banheira ao lado. Fiz a força necessária para erguer o corpo e apoiar os pés nas bordas da banheira que se encostavam junto à parede, a poucos centímetros do chão. Um estado de equilíbrio deveria ser mantido naquele revestimento escorregadio, não fui capaz de soltar a barra.
Com muito esforço, tentei erguer o corpo novamente. Meu pé direito escorregou sobre a superfície extremamente polida da banheira, o que me fez perder o equilíbrio e eu quase caí. Sorte foi tanta, que os meus reflexos perceberam essa possibilidade e meus dedos se entrelaçaram à barra como se eles fossem raiz e, esta, terra. O barulho do deslocamento foi mínimo. Aos poucos, me ajeitei novamente e voltei à posição anterior só que, agora, tremendo mais do que antes.
Tinha que tentar mais uma vez, não havia outra opção. Desta vez, usei toda a força que tinha para erguer o corpo a ponto de alcançar o parapeito da janela. Minha mão direita conseguiu agarrá-lo, mas os dedos suados e escorregadios pioravam a situação. Antes que eles pudessem se desprender, fiz o movimento rápido e, novamente, não muito consciente de soltar a barra em que segurava a mão esquerda e, com esta, também agarrar a superfície metálica da janela. Ao mesmo tempo, minha perna esquerda subiu e se sustentou na barra em que antes estavam as minhas duas mãos.
Olhei para baixo com um medo extremo. A sensação de que eu fosse me esborrachar lá embaixo aumentou. Por esse motivo, fechei os olhos por um instante e a imagem do chão tão distante de mim desapareceu. Ergui a cabeça e abri os olhos novamente. A figura da janela de um tamanho perfeito se formou na minha retina. Um feixe de esperança brotou no meu ser.
Os dedos tremiam muito enquanto tentavam arrastar o vidro. Um ruído estridente que eu não podia evitar acontecia enquanto o metal da janela, um pouco enferrujado, ia deslizando. Percebi um vento frio batendo de encontro ao meu rosto quando finalmente consegui sentir o típico cheiro de chuva que vinha lá do jardim. Aliás, agora eu conseguia visualizar grande parte do jardim finamente ornamentado, aquele toque paisagista comum a mansões desse tipo.
Meus cotovelos se apoiaram com força no parapeito da janela aberta. Era o momento, mais uma vez, de inspirar profundamente e apostar em toda a força que eu poderia fazer para erguer meu corpo. Só assim eu poderia subir inteiramente naquela janela enorme, além disso, teria que fazer, também, um pequeno cálculo para não passar direto por ela e esborrachar do outro lado. Se isso acontecesse, claro que ele perceberia a minha jogada.
Foi engraçado e meio gratificante perceber que os meus movimentos me ajudaram pela primeira vez na vida e que, como um gato agachado, eu estava equilibrada em um lugar relativamente alto. Minhas pernas dobradas tocavam o metal com precisão e minhas mãos, que também se encostavam à janela, auxiliavam um equilíbrio quase estável.
Não quis pensar muito no próximo passo, que correspondia a pular de uma altura de quase 2 metros. Para uma garota baixinha, isso significava muito. Eu iria pirar. Simplesmente calculei rapidamente o salto que eu precisava dar para chegar ao chão sem cair, torcer o pé ou algo do tipo. E foi. Com um barulho que eu consideraria entre leve e médio, eu estava intacta sobre o chão da varanda. Seria quase um orgulho se eu tivesse tempo para comemorar o sucesso da primeira etapa do meu plano, mas agora havia a segunda. Por onde eu sairia?
Vislumbrei rapidamente o jardim bem montado da casa que Noah alugara com o propósito de roubar garotas indefesas enquanto finge ser amigo delas. Sim, era um destino bem incomum pra um aluguel. Enfim. As paredes eram altas e decoradas com rochas cinzentas maiores que o cabeção da minha irmã. Havia uma grande área verde que circundava um quiosque de bom tamanho que parecia conter uma churrasqueira e algumas mesas de madeira. Uma combinação entre palmeiras e árvores frutíferas me deixou um pouquinho confusa, mas a grama estava impecável, fina, curta e verde. Outro elemento que não poderia deixar de ser notado era a enorme piscina que existia à frente disso tudo. Com a água de um azul brilhante que poderia deixar qualquer um hipnotizado, refletia as nuvens negras que iam se formando nos céus. Ao seu lado direito, havia uma espécie de fonte que se encostava à parede e imitava uma cachoeira rochosa desaguando na piscina.
Tudo muito bonito, mas o principal: não havia outra saída que não a da frente, a não ser que eu estivesse disposta a escalar a “cachoeira sintética” e pular o muro chegando à casa do vizinho. Nem portão dos fundos que levava ao outro lado do quarteirão havia. Eu teria que sair pela frente. Movi o meu corpo rapidamente e silenciosamente até adentrar em um corredor externo que unia a varanda e a garagem. Eu já conseguia ver o carro do Noah de longe, lá na rua. Isso aumentou o meu anseio de chegar ao “mundo exterior”, mas algo me segurou os ombros.
– Ah! – Deixei escapar uma exclamação que era mescla de pavor, susto e desespero. Os dedos grossos de alguém que ainda não estava dentro do meu campo visual me apertavam de forma que a parte de cima do meu corpo se debatia de dor, como reflexo. Um assovio cortou o ar, agora que eu lutava silenciosamente enquanto sentia meus joelhos cessarem e se curvarem ao chão.
Uma figura alta contornou meu corpo enquanto a outra continuava me segurando firmemente. Eu não era capaz de visualizar seu rosto porque minha cabeça balançava de maneira furiosa, assim como os cabelos que, cheios de fúria, se debatiam inutilmente contra o ar gelado. Os sapatos sociais pretos que se encontravam à minha frente fizeram um leve movimento para trás, entendi o motivo disso quando dedos finos e compridos tocaram o meu queixo e o forçaram para cima.
Encarei o rosto de um homem desconhecido. Sua face longa, pálida e magra lhe dava um aspecto mórbido demais para alguém que ainda estivesse vivo. O queixo delgado me passava uma imagem ainda mais horripilante quando em contraste com os olhos arredondados e saltados, visivelmente curioso enquanto me examinava a face. Penetrou-me os olhos com os seus, profundos, escuros, infinitos. Parecia estar procurando algo que não conseguia encontrar, mas de repente, dentes igualmente finos e quase amarelados foram revelados. O sorriso me arrepiou a alma.
– Achei que poderíamos resolver isso de maneira agradável. – Suspirou uma voz conhecida às minhas costas. Fiquei em dúvida se era atuação ou se ele estava realmente desapontado como parecera.
O timbre conhecido do Noah fez com que o homem que era provavelmente parente do Herman, da Família Monstro, deixasse de me tocar. Eu não consegui reagir.
– Pode soltar. – Noah ordenou e um alívio percorreu por mim quando senti que os dedos sobre os meus ombros e região cervical se afrouxaram.
Senti o calor do seu corpo quando ele se aproximou por trás e estendeu a mão para me ajudar a levantar. A ponta dos seus cabelos loiros quase entrava no meu campo de visão, o que indicava que seu rosto estava bem próximo ao meu. Minhas mãos se apoiaram no chão e eu consegui erguer meu corpo sozinha. Virei-me e quase consegui notar sua expressão insatisfeita com tal gesto.
– O que estava tentando fazer? – Gargalhou como se eu fosse um animal de estimação que planejara algo muito estúpido. – Você poderia ter se machucado.
– Como se você ligasse. – Resmunguei enquanto visualizava a minha nova situação. Noah não estava sozinho na casa como dissera, tinha colocado duas sentinelas por prevenção. Caso eu resolvesse fazer algo bobo, exatamente como eu fizera. O magrelo ainda me encarava com um ar misterioso e cômico que eu não seria capaz de entender naquele momento e o outro, eu podia ver agora, era moreno, mais robusto, porém mais baixo. Tive a impressão de que ele estava fazendo muita força para parecer ser mais malvado em suas feições.
– Não seja tão trágica. – Noah refletiu com uma voz cansada. Talvez estivesse cheio de bancar o bonzinho. Também não tinha um pingo de arrependimento ou pesar em seu tom. - Venha comigo. – Ele fez um gesto com as mãos e começou a se afastar.
Foi a minha vez de dar risada. Não sabia em que universo ele esperava que eu o acompanhasse a qualquer lugar que fosse. Não mesmo, nem pensar. Seus pés pararam de se mover quando ele captou a minha intenção.
– Você não entendeu. – Então virou o corpo com o propósito de me encarar. – Não foi um pedido.
Não parecia ser brincadeira. Agora, além de desvantagem de força brutal eu ainda estava em desvantagem numérica. E não soava muito inteligente desrespeitar esse tipo de ordem, pelo menos naquela situação. Ergui a cabeça, equilibrei o peso da mochila sobre a coluna e avancei. Isso o fez sorrir levemente e tornar a mostrar suas costas para mim, avançou pelo piso e logo estava sobre a grama. Minhas pernas trêmulas tentaram imitar o movimento quando uma mão grossa imobilizou minhas mãos atrás do meu corpo.
– Arrgh. – Resmunguei no impulso, apesar de que a manobra desse cara estava realmente me causando certo desconforto. Sendo franca, estava doendo pra caramba. Noah inclinou levemente a cabeça.
– Pode deixar. Ela não vai fazer nenhuma estupidez.
Com os braços soltos, pude contornar a piscina que parecia bastante funda e segui Noah até o grande quiosque de madeira que ficava bem ao fundo do jardim, todo contornado por grama. Parecia ter sido construído com o intuito de ser um espaço de relaxamento. Que ironia. O telhado arredondado era do mesmo tom marrom escurecido da madeira que fazia parte da estrutura do local. Grandes toras polidas serviam como hastes de apoio ao teto e o perímetro de formato octogonal também era cercado por madeira brilhante. O piso também seguia esse padrão de cabana campestre.
Um barulho diferente dos trovões se fez no ar quando Noah arrastou uma das cadeiras feitas de carvalho para que eu me sentasse. Entendi o gesto, coloquei a mochila sobre o meu colo e o obedeci antes que qualquer palavra fosse dita. Ele pareceu satisfeito e puxou uma cadeira para si, logo à minha frente.
– Então... – Noah estendeu como se quisesse puxar o assunto para uma conversa casual. Com o canto dos olhos, percebi que os dois homens continuaram atrás de mim, mas agora parados, recostados em um dos pilares de madeira do quiosque. O homem de cabelos loiros e encaracolados à minha frente tirou algo do bolso. – Sabe o que é isso?
Meus olhos se estreitaram tentando focalizar melhor o objeto. A luz lá de fora já não era mais tão abundante por causa das inúmeras nuvens carregadas de água que passavam sobre a gente.
– Um pêndulo de Newton?
– Exato. Bem legal, não é? – Sua voz soou entusiasmada quando ele pousou o pequeno objeto metálico que sustentava cinco bolinhas dispostas em linha reta sobre a mesa. Ele, então, subiu uma bolinha de cada lado e as soltou no mesmo instante. Como consequência, elas começaram a pular sobre as outras três. – Um ótimo exemplo da conservação da energia, não acha?
– Ah... – A ideia de que Noah poderia ser algum tipo de sociopata parecia fazer ainda mais sentido agora. – Acho que sim.
– É ótimo para refletir sobre algumas coisas... – Ele disse baixinho, quase apenas para si mesmo. Olhou o movimento do pêndulo profundamente e, por alguns instantes, aparentou esquecer-se de que eu estava ali; de que ele mesmo estava ali. Subitamente, desviou os olhos do pêndulo para encarar meu rosto pálido. – Por que estava tentando fugir?
Senti meu interior tremendo com o seu tom de voz. Um arrepio que me percorreu por inteira pareceu não saber se pronunciar em pavor. Eu apenas conseguia ficar estática enquanto percebia que as minhas mãos tremiam e suavam durante a tarefa de segurar a alça da mochila sobre o colo com toda a força que eu tinha. Notei que as minhas próprias unhas, um pouco crescidas, estavam machucando a carne da minha palma por causa do forte aperto de quem segurava algo como se estivesse segurando a própria vida.
– Eu sei o que você quer. – Foi o máximo que eu consegui dizer. Usei toda a coragem que tinha para que o medo não transparecesse nas palavras, para que estas soassem firmes.
– Ótimo. – Ele sorriu para mim e voltou a encarar as bolinhas, como se fosse um menino brincando de carrinho. Desta vez, ele puxou uma de apenas um lado e soltou para que, agora, as bolinhas levantassem em momentos alternados. – Isso vai facilitar a nossa negociação.
– Por quê? – A pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse me controlar. Ele provavelmente entendera o que eu realmente estava querendo saber.
– Por quê? – Sibilou com certo desdém. – Porque você possui algo que me é de grande valor e eu só poderia consegui-lo se fingisse me importar com você, com os seus dramas adolescentes, com os seus amigos patéticos... – Ele respondeu bem devagar, como se estivesse me explicando algo que eu não pudesse entender.
– Pra quê tanto trabalho? – Minha voz retrucou com uma pitada de ódio visível. Eu não precisava mais fingir firmeza, Noah me dera o estímulo necessário para reagir.
– Foi o que eu pensei quando ouvi o plano pela primeira vez. Afinal de contas, eu sou um cientista. Não é o meu papel fazer esse tipo de jogada quando – e gargalhou friamente ao dizer – você é claramente tão fraca.
Um relâmpago iluminou temporariamente o local. Os dois homens que estavam atrás de mim se mexeram levemente com o susto. Eu estava, apenas, decepcionada. Era a segunda vez em pouco tempo que eu me decepcionava completamente com alguém que confiava. Claro que, por vários motivos, a decepção com o Sam me fizera querer morrer e sumir. O Noah apenas me fazia querer esganá-lo. Qualquer lágrima que eu viesse a derramar poderia ser letal para alguém que a provasse, pois estaria repleta de ódio.
– Mas vários obstáculos surgiram. – Noah continuou a falar como se contasse uma história de contos de fada para algum grupo de crianças, embora seus olhos ainda focalizassem o pêndulo de Newton. – Parece que não somos os únicos que a querem. Ah, e claro, teve o imbecil do seu namorado.
– O que você sabe sobre o Sam? – Perguntei ironicamente, mas com a esperança de entender se ele conhecia ou não o problema das personalidades.
– Outro fraco. Estava atrás de você com o mesmo objetivo, se prestando até a virar seu vizinho para poder vigiar melhor o paradeiro da caixa. Era uma ameaça. Tinha claramente mais meios de consegui-la que eu, o amigo bobo meio apaixonado que ouve os seus mil dramas. – Riu de si mesmo enquanto puxava mais bolinhas para o alto e soltava observando o movimento. – Até que ele se apaixonou de verdade. Que bonitinho. – Debochou ironicamente. – E pior do que rival, alertou-a sobre o perigo. Tão tapada que nem fazia ideia, só percebeu que era o verdadeiro alvo quando o grandão avisou.
Noah parou de brincar com o seu pêndulo e levantou-se da cadeira. Exibia certo deleite por poder contar essa história evidenciando seu papel de gênio, é claro. Não pude evitar que alguma secreção lacrimal saísse dos meus olhos depois dessa parte peculiar sobre o Sam. Era uma mistura de raiva e pesar. Noah havia me relembrado de que ele me avisara sobre a minha real situação e eu fora inocente e agira com imprudência. Entre meus pensamentos amargurados, percebi que um rosto bem familiar estava, agora, bem perto do meu. Os olhos arregalados quase saltavam sobre os meus e o hálito de menta saía junto a um sorriso.
– Está chorando? – Ele quase encostou a ponta do nariz dele com a minha enquanto encarava meu olhar assustado, imóvel. As extremidades dos seus dedos finos se enrolaram sobre uma mecha de cabelo castanho cor de mel que saía da minha cabeça. – Chateada? Ou perplexa? – Riu alto, de maneira estridente, enquanto minhas mãos tremiam de medo sem que ele pudesse ver. Ele, então, movimentou os dedos e encaixou os meus cabelos atrás da minha orelha. Em seguida, com um leve movimento, posicionou os lábios muito próximos à minha orelha. Outro arrepio me foi de direito, antes que ele pudesse sussurrar: – Você realmente achou que eu me interessaria por uma garota como você?
Notei um leve sorriso sobre seus lábios que voltaram à posição original antes que este se transformasse em dor. Gotículas de sangue eram visíveis nos quatro cortes que as minhas unhas causaram em sua face. A pele apresentava um rubor comum àquele de inflamação, a mancha vermelha circundava toda a ferida que lhe fora feita e sua expressão surpresa exibia, também, ódio. Estávamos quites. Pelo menos por agora.
Após esse breve tempo de deleite com a minha reação, senti meu corpo sendo empurrado para trás. Quase despenquei ao chão junto com a cadeira quando os dois homens atrás de mim resolveram me deter. Foi em vão tentar debater-me contra eles, eram muito maiores e mais fortes do que eu. Logo imobilizaram as minhas pernas que não paravam de se mexer e surgiram com pedaços de corda para prender meus membros. Durante meu breve momento de luta inútil, pude perceber que Noah ainda estava parado, a poucos centímetros de distância, segurando a face com uma das mãos.
Agora eu estava numa situação pior do que a de antes, se é que isso era possível. A mochila ainda estava no meu colo, mas as minhas mãos estavam amarradas entre si nas minhas costas, quase como as minhas pernas, que também estavam presas uma à outra. Além de tudo, ainda tinha o fato de que até para me levantar, haveria de ter planejamento já que uma cadeira de madeira pesada estava entre mim e minhas mãos. Ou seja, eu estava completamente exposta.
Uma cabeça com cabelos mais bagunçados do que os da boneca que Sofia usa para experimentos encarou o Noah. Ele ainda olhava para mim com uma raiva que eu não conseguia compreender. Quero dizer, um pequeno corte na bochecha era o mínimo que ele merecia. Era um pequeno pseudo-gênio pretencioso e egoísta, apenas isso.
– Eu estava tentando ser legal com você.
Imagina se não estivesse.
– Agora você me força a levar as coisas de um jeito que eu não gostaria. – Colocou a mão sobre o peito e se explicou como se fosse a vítima da situação. Logo em seguida assoviou bem alto usando o auxílio de uma das mãos. Fiquei em estado de alerta porque, claro, não sabia o que estava por vir quando ouvi barulhos que correspondiam a oito patas marchando na minha direção.
Descobri depois que Noah também gostava de cachorro, especialmente de Pastor Alemão e Dobermann. Ambos bonitos e bem cuidados, mas enormes e cheios de dentes, como quaisquer outros cães treinados para machucar. Eles vieram com o chamado e sentaram-se na grama, externamente ao quiosque, observando-me como se eu fosse um pedaço de frango preso na assadeira. Latiam bastante ao perceber a intrusa. E o mais intrigante: será que ninguém ouviria?
– Vamos direto ao ponto. Onde está a caixa? – Ele perguntou parecendo bem mais sério e bancando menos o engraçadinho. Acho que o tapa na cara que eu lhe dera o pegou de surpresa.
– No dia em que eu estava na rua à caminho da Universidade… – Sussurrei tentando ganhar tempo. Noah parecia aquele tipo de vilão de filmes, estava adorando o culto ao seu plano genial.
Seus cabelos encaracolados se voltaram para mim com um ar de assombro. Talvez ainda estivesse perplexo pelo tapa ou talvez ainda não reconhecera o episódio ao qual eu estava me referindo. Quero dizer, não havia mais motivos para bancar o desentendido nessa altura do campeonato. Um relâmpago iluminou as cordas que prendiam meus pés um no outro.
– Quando três homens me forçaram a entrar em um carro…
Aconteceu algo bem interessante: Noah não parecia mesmo saber do que eu estava falando. Os olhos dourados e confusos encaravam meu corpo preso às amarras. Com leveza, guardou o pequeno pêndulo de Newton de volta ao bolso. Franziu o cenho mergulhado em um mundo que parecia só seu. Por breves segundos, notei que ele estava tentando compreender o que eu acabara de contar-lhe. A expressão perturbada queria encaixar as últimas peças coloridas do cubo mágico para que ele, finalmente, fizesse algum sentido. Logo, endireitou-se.
– Onde você guardou a caixa? – Indagou com firmeza. Talvez não quisesse admitir que não estava a par de toda a situação. O orgulho lhe cravou a mente e ele não poderia dizer que seu plano tinha buracos que ele desconhecia.
– O senhor Félix... – Gaguejei buscando outro assunto no fundo dos meus arquivos de memória. Meus dedos se mexiam de maneira delicada por entre as cordas que os prendiam, restritos pelo forte aperto que já estava causando sensação de formigamento por todo o meu pulso. Eu teria que distraí-lo até que eu pudesse pensar em alguma coisa. – Você atirou nele?
O loiro balançou os cabelos ao ar enquanto ria impetuosamente da minha indagação. Foi como se eu tivesse contado uma das melhores piadas que ele já escutara em toda a sua vida. Seu peito chacoalhava diante de tamanha explosão humorística. Os dois homens que estavam atrás de mim pareciam feitos de pedra, embora os cachorros latissem com veemência a cada novo som de trovão.
– Você acha que eu seria capaz disso? – Bom, para mim, a essa altura, ele seria capaz de qualquer coisa. – Daquele trabalho mal feito? – Ah, ele não estava se referindo à frieza de atirar em outra pessoa. Era bem claro que ele o faria se fosse necessário. Levou os dedos à região ainda avermelhada do próprio rosto. O sangue que saía das fissuras causadas pelas minhas unhas já havia coagulado. – Aquele imbecil já não está mais entre nós. – As palavras soaram com calmaria, mas exibiam um toque sombrio. – A pessoa para quem trabalho não é muito... Benevolente. – Escolheu as palavras com cuidado.
– Não era para ser ele...
– Aquele velho? Não mesmo. – Ajeitou as vestes e encarou as nuvens arroxeadas que se juntavam rapidamente ao céu. Noah parecia um vilão paciente e equilibrado. Pelo menos até agora, estava conversando como se estivesse num café filosófico. Já deveria ser mais de quatro horas da tarde. Eu não tinha o hábito de usar relógio de pulso. E, mesmo que eu tivesse um nesse momento, teria que fazer uma acrobacia como àquela da menina do Exorcista para poder vê-lo com as mãos amarradas nas costas.
– O imbecil errou o número. Ele deveria invadir seu apartamento e forçá-la a entregar a caixa. Então sairia sem ser notado, sem maior alarde. – Abriu o jogo. Eu me sentia um pouco melhor agora que ele estava me jogando a dura verdade. Qualquer coisa era melhor do que ser iludida em repetição. – Quando percebeu o erro, desesperou-se e atirou no velho. Então seu namoradinho quis bancar o herói e as coisas ficaram bastante complicadas. A polícia tentou intervir, mas obviamente não conseguiram entender o crime.
– M-mas... – A voz parecia pesada demais para sair da garganta. Os dedos continuavam se mexendo freneticamente entre as cordas. Eu não tinha certeza se os dois homens atrás de mim estavam percebendo meu movimento. – Eu não tinha a caixa.
– Não. – Ele sorriu com certo pesar. Senti minhas mãos arderem. Não pela paresia causada pelas amarras muito apertadas, mas pela vontade crescente de dar-lhe outra bofetada. – Mas não sabíamos. Achamos que o idiota do seu pai a tinha escondida no apartamento. Que estivesse com você desde sempre. Então surgiram novas informações.
Esse plural usado por ele me incomodava. Além do Noah, quem mais estaria envolvido em todo esse plano? Seria mais sensato que eu lhe entregasse logo a caixa que estava dentro da minha mochila? Eu não tinha certeza se eu sairia viva depois disso. E ele sabia que estava comigo. Ele sabia que era por isso que eu estava esperando naquele ponto de ônibus. Sozinha.
– Aquele outro velho também morreu por imprudência. Ou eu diria azar?
Agora era eu que não sabia do que raios ele estava falando. Que outro velho? Quem mais teria sido prejudicado por minha causa? É claro que, por muito tempo, eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Era estranho saber que, antes que eu pudesse compreender a minha situação, eles já estavam matando idosos por aí.
– Quem?
– Aquele mendigo que ficava rondando seu prédio, catando o lixo.
Meu queixo caiu. Noah estava se referindo àquele senhor que recolhia o lixo reciclável dos apartamentos e aproveitava para cuidar dos pombos que rondavam o condomínio. A situação piorou bastante depois de sua morte, já que as aves começaram a ficar desesperadas por comida e acabavam abordando outros moradores de maneira não muito receptiva. Mas o que ele tinha a ver com isso tudo?
– Ele teve o azar de encontrar uma pequena caixa que não conseguia abrir. – A voz ressoou divertida, como se pudesse responder meus pensamentos. – A descrição da tal caixa parecia bater com a ideia que tínhamos dela. Seu pai e o pai daquele brutamontes a compraram juntos. Pensamos que você poderia tê-la encontrado, desistiu de abrir e jogara no lixo sem nem desconfiar de sua importância. – Ele conversava tranquilo, como se estivesse contando uma história para uma criança. Consegui soltar meu indicador direito do nó que prendia minhas mãos. O Herman e o outro homem ainda não se moveram. – Ele não quis entregá-la a nós e pagou o preço. Quem iria sentir falta de um mendigo? – Sorriu levemente.
Eu estava em choque. Eu jamais havia suspeitado que a morte daquele senhor citado nos primeiros parágrafos dessa minha história tinha qualquer coisa a ver com todo o desenrolar dela. Acho que ele não fazia ideia das pessoas com quem estava se metendo quando se recusou a entregar a caixa. E essa caixa não era a que eles queriam. Poderia ser qualquer outra coisa, como por exemplo, uma caixa de música ou de bijuterias que alguém não quisera mais. Ele havia morrido em vão.
– Por que não me sequestrou ontem? – Perguntei pensando que eu estivera sozinha, na mesma situação, no dia anterior quando fui buscar a encomenda. Por que esperar até hoje? Compaixão com o meu aniversário? Eu duvidava muito.
Ele sorriu de novo. Mostrou os dentes muito brancos como se estivesse se divertindo com alguma tolice que eu havia dito. Parecia um professor de matemática que zombava um aluno que havia feito a pergunta mais ignorante de todos os tempos. Para o aluno, a equação apenas não fazia sentido.
– Você é mesmo muito inocente, não é? – Usou aquela velha mania da Sofia de responder uma pergunta com outra pergunta. Segurou um tufo dos meus cabelos e entrelaçou entre seus dedos finos. Parecia alguém que acariciava um cachorrinho, um ser irracional. – Tinha alguém lhe seguindo. Protegendo você. E você se achando corajosa por ter ido sozinha. – Outra risada ecoou junto ao barulho de um trovão.
A surpresa, mais uma vez, entrou pelos meus pulmões e cortou brevemente minha respiração. Não poderia ter sido o Sam, qualquer um dos dois. O diurno nem sabia que seus problemas eram maiores do que uma partitura complicada para tocar no violoncelo. O noturno tinha brigado comigo justamente por ter ido sozinha. Ninguém teria medo da Sofia ou da Rebecca, as próximas pessoas que sabiam parcelas dessa história confusa. Então quem teria sido? Quem teria me seguido? Quem saberia que eu me arriscaria a ir sozinha receber essa caixa no dia do meu aniversário? Eu simplesmente não sabia.
– Essa pessoa poderia ter dificultado nossa... intervenção. Tivemos que esperar seu próximo deslize e, para minha surpresa, veja só quem aparece de novo ao mesmo lugar? – Sorriu triunfante. Falando assim, era como se eu fosse a maior burra do universo. – E essa história toda nos leva ao clímax. É o que está acontecendo agora, querida. Nós escrevemos a história. – Aproximou o rosto bem próximo do meu. Eu conseguia ver seus poros dilatados de excitação pela grande conquista. As próximas palavras saíram em um andamento tão lento quanto o Adagio de uma peça musical. – Onde está a minha caixa?
– O tem nela? – Perguntei finalmente. Esse era o meu clímax. Finalmente, descobrir o motivo de todo esse drama no qual fui inclusa. Se eu ia morrer, eu merecia saber pelo menos o escopo do meu fim.
– Bem que você gostaria de saber, não é? – Sorriu novamente em resposta. A cada minuto, Noah parecia mais alegre, mais tomado por uma sensação de explosão interna de deleite. Ele não iria dividir comigo o segredo. Com um movimento brusco e de extrema satisfação, agarrou a mochila que estava sobre meu colo. Minhas mãos estavam imobilizadas. Eu não poderia fazer nada. – Está aqui, não está? – Mal conseguia disfarçar o contentamento no tom de voz.
Eu olhei para baixo. Verdade era que eu não havia conseguido pensar em nenhuma saída para meu atual problema. Eu tinha os membros inferiores e superiores amarrados, não tinha mais a posse do tão desejado objeto. Não tinha mais nada. Dali para frente, Noah poderia me oferecer o destino que bem entendesse. Ele tinha a faca e o queijo nas mãos, eu só tinha a decepção e os pedaços da confiança que me fora quebrada.
– E agora? – Perguntei na esperança que ele me contasse o que estava planejando fazer comigo. Ele me deixaria ir embora agora que já tinha conseguido o que queria ou eu simplesmente sumiria? Eu talvez não fosse tão inocente quanto as pessoas achavam. Eu sei bem que esse tipo de gente para quem o Noah trabalha é bem capaz de conseguir o que quer sem deixar rastros dos crimes que cometeram. Eu poderia sumir de maneira que ninguém jamais tivesse qualquer outra pista sobre o meu paradeiro. Era assim no mundo real.
– Agora? – Ele quase saltitou de alegria enquanto abria, vagarosamente, um dos zíperes da minha mochila. Os cabelos encaracolados pareciam dançar um Allegretto. – Já passamos pelo ponto máximo da história e esse... – Um sorriso sombrio saltou de seus lábios – É o fim.

As palavras ressoaram pelos meus ouvidos antes que um estouro muito alto se fizesse presente. Não era outro trovão. Um cheiro característico de mostarda entrou pelas minhas narinas.